O Jogo do Wolverine: Um Foco na Emoção em Detrimento da Coesão Narrativa
Uma aventura ousada em um universo alternativo que coloca Logan frente a frente com famílias problemáticas, amores trágicos e violência contra os mutantes, mas cuja lógica começa a se perder com o avanço da história.
O Wolverine tem sido um dos favoritos dos fãs por tanto tempo que já marcou presença em diversas mídias, fragmentando sua identidade. Ele é um X-Man, um Vingador, um lobo solitário, um líder, um guerreiro implacável ou apenas um animal selvagem? A Insomniac Games, responsável pelo desenvolvimento do novo título estrelado pelo mutante que tem a habilidade de curar qualquer ferida, exceto sua própria atitude, optou por uma aventura linear. O jogo foca nos momentos emocionais de pertencimento e traição – enquanto suja bastante as garras do herói de sangue.
A Insomniac já era uma desenvolvedora aclamada, responsável pelas franquias Spyro, Ratchet and Clank e Resistance, mas sua trilogia do Homem-Aranha a elevou a outro patamar. Agora, como seria a abordagem do estúdio para um herói completamente diferente? Em Wolverine, a Insomniac abandonou o formato de mundo aberto em prol de uma narrativa dividida em capítulos, variando os cenários e focando estritamente em Logan e seu pequeno círculo de aliados e inimigos. A estrutura funciona bem para manter a história íntima, embora faça o jogo parecer uma sequência de combates em salas fechadas ou cenas de diálogo. Diferente de seus títulos anteriores, as missões secundárias foram deixadas de lado e os itens colecionáveis estão mais escondidos do que espalhados.
O preço por essa escolha é a linearidade: você avança pela história que a Insomniac construiu, enfrenta quem aparece pela frente e acompanha a carga dramática. O grande diferencial em relação a um filme interativo é o combate, que coloca Logan contra desde pequenos grupos até multidões de inimigos que ele pode retalhar com ataques furiosos. No começo, as lutas são brutalmente satisfatórias e cheias de fúria, com o protagonista sendo banhado em uma quantidade cômica, porém perturbadora, de sangue. No entanto, a novidade perde o brilho após algumas horas.
É essa oscilação entre violência severa e trocas emocionais que fundamenta o personagem, mesmo que a coerência da trama se desgaste na reta final. Os diálogos bem construídos me mantiveram interessado até o fim. Entre as missões violentas, há momentos de calmaria para conversar com aliados e explorar a história de fundo de um mundo diferente do habitual, onde os X-Men não existem.
A premissa da ausência dos X-Men é um dos pontos altos. Na cena de abertura, um jovem e selvagem Logan é abordado por um homem de terno elegante e sotaque britânico, ecoando a clássica dinâmica de um mentor resgatando o lado humano da fera. Mas, para a surpresa de muitos, não é o Professor Xavier, e sim Nathaniel Essex, mais conhecido pelos fãs de quadrinhos como Senhor Sinistro.
Sem a bússola moral dos X-Men, a linha entre o bem e o mal se dissolve. Essex lidera a Equipe X, formada pela calculista Mística, o sádico Dentes-de-Sabre e, no passado, o próprio Wolverine, que abandonou o grupo insatisfeito com seus métodos bárbaros. Do outro lado está o supremacista humano Bolivar Trask e sua milícia armada, que tenta exterminar os mutantes com seus robôs Sentinelas.
Como fã de quadrinhos, achei interessante essa subversão: quem é Logan sem o apoio do Professor X? No entanto, quem não está tão familiarizado com a mitologia do personagem pode ter dificuldades para entender o peso desse universo alternativo. A conclusão do jogo não é surpreendente, mas a Insomniac gasta um bom tempo tentando fazer Logan realizar o "trabalho sujo" por motivos nobres, destacando a disfunção familiar.
Um aspecto romântico também é abordado. Logan cruza o caminho de uma ruiva telecinética, Jean Grey. Sem o obstáculo de Scott Summers (Ciclope), a tensão entre os dois finalmente ganha espaço, mas a atração parece mais imposta pelo roteiro do que algo desenvolvido naturalmente no jogo. Mesmo assim, certos momentos conseguem criar um amor trágico que os fãs esperavam ver.
Para amarrar tudo, a Insomniac traz revelações ligadas ao passado e à memória fragmentada de Logan. Como nos jogos do Homem-Aranha, o estúdio plantou sementes para futuras sequências, mas muitos elementos e referências podem passar despercebidos por quem não conhece o universo dos X-Men. Algumas resoluções são apressadas na reta final, e as tramas paralelas não recebem o fechamento adequado em meio a um confronto final abrupto.
Apesar de tudo, o núcleo emocional da história — a luta de Logan entre violência e pertencimento — mostra o claro comprometimento da Insomniac. Há um grande potencial para uma continuação que deixe o passado de Logan para trás e o permita esculpir um novo destino não apenas com suas garras, mas com o coração.