Pela Primeira Vez na História, Astrônomos Detectam Atmosfera em Planeta na Zona Habitável de Outra Estrela
Por mais de meio século, a humanidade aponta seus telescópios ao céu em busca de um sinal, uma pista, qualquer evidência de que não estamos sozinhos neste universo. Até hoje, essa busca produziu poucos resultados concretos. Mas agora, pela primeira vez, a ciência deu um passo genuinamente histórico: astrônomos descobriram uma atmosfera intacta ao redor de um planeta rochoso localizado exatamente na zona habitável de sua estrela. Bem-vindo ao universo de LHS 1140b.
O Que é LHS 1140b?
LHS 1140b é um planeta rochoso semelhante à Terra que orbita uma estrela anã vermelha de classe M a cerca de 48 anos-luz de distância. Para ter uma ideia de escala: a Voyager 1, a sonda espacial mais distante já lançada pela humanidade, está se aproximando de seu primeiro "dia-luz" de distância — e ela viaja pelo espaço há quase 50 anos. LHS 1140b fica muito mais longe.
O planeta orbita sua estrela dentro da chamada "Zona de Goldilocks" (Zona Habitável), o que significa que não está próximo demais para ser carbonizado como Mercúrio, nem distante demais para ser eternamente congelado. Está na faixa certa para que água líquida exista na superfície — um dos ingredientes fundamentais para a vida como a conhecemos.
De acordo com um novo estudo publicado na revista Science, o que torna essa descoberta verdadeiramente especial não é apenas a localização do planeta na zona habitável. É que LHS 1140b parece reunir critérios extras que os cientistas consideram essenciais: ele é rochoso (e não um gigante gasoso) e, surpreendentemente, conseguiu manter sua atmosfera apesar das condições extremas.
Por Que Isso é Tão Difícil?
A maioria dos planetas rochosos orbita estrelas anãs vermelhas de classe M — as estrelas mais comuns do universo. Mas essas estrelas emitem radiação de alta energia por períodos muito mais longos do que estrelas como o nosso Sol. Esse bombardeio constante de radiação, combinado com o vento estelar, acaba "arrancando" as atmosferas dos planetas nas fases iniciais de sua formação.
É por isso que, até LHS 1140b, a Terra era o único planeta rochoso que os humanos já tinham observado com uma atmosfera intacta. Nenhum outro exoplaneta rochoso havia demonstrado a capacidade de reter seus gases atmosféricos diante dessas forças destrutivas.
"É muito emocionante. Um grande objetivo na área tem sido entender se algum exoplaneta rochoso pode, afinal, reter atmosferas." — Collin Cherubim, autor principal do estudo e doutor pela Universidade de Harvard
Como Foi Descoberto?
A descoberta não foi trivial. Cherubim desenvolveu um modelo computacional capaz de simular como as atmosferas de exoplanetas evoluem ao longo de bilhões de anos. Esses modelos previram a existência dos chamados "mundos de hélio" — planetas rochosos cuja atmosfera é composta principalmente de hélio.
Cherubim testou sua teoria com LHS 1140b, e o resultado foi ouro. A atmosfera superior do planeta é quase inteiramente composta de hélio, com uma acentuada depleção de hidrogênio. O hélio, sendo um gás nobre leve e quimicamente inerte, resiste melhor ao arrancamento pelo vento estelar, o que explicaria por que LHS 1140b conseguiu preservar sua camada gasosa.
"Isso pode ser o primeiro mundo de hélio conhecido. O fato de que esses mundos rochosos podem reter atmosferas de hélio não é apenas bom para as perspectivas de habitabilidade, mas também nos diz que nossos modelos de previsão estão acertando em algo." — Collin Cherubim
Há Vida em LHS 1140b?
Essa é a pergunta de uma civilização inteira. A resposta honesta é: não sabemos. Mas as perspectivas são fascinantes.
A ciência reconhece três requisitos principais para que um planeta sustente vida: uma atmosfera, temperaturas adequadas para manter água líquida e uma superfície majoritariamente rochosa. LHS 1140b parece satisfazer todos esses critérios, pelo menos em teoria.
Os desafios, porém, são consideráveis:
- A atmosfera superior é quase inteiramente de hélio, um gás que não suporta vida como a conhecemos
- O planeta é bloqueado gravitacionalmente à sua estrela — um lado tem eterno dia, o outro eterna noite
- A gravidade é quase o dobro da terrestre, já que LHS 1140b é cerca de 70% maior que a Terra
Ainda assim, os pesquisadores não descartam totalmente a possibilidade de vida. Modelos computacionais sugerem que a atmosfera inferior do planeta pode conter gases mais propícios, como dióxido de carbono, água e até oxigênio. Além disso, ainda não se sabe se o planeta tem uma superfície rochosa ou se está completamente coberto por um oceano global.
O Contexto da Busca por Vida Extraterrestre
LHS 1140b não está sozinho na lista de candidatos. Marte continua sendo o candidato mais próximo e mais estudado. K2-18b apresentou evidências preliminares de dimetilsulfeto, um composto geralmente produzido pelo fitoplâncton oceânico. O sistema TRAPPIST-1 possui sete planetas do tamanho da Terra, três deles dentro da zona habitável de sua estrela.
O Significado da Descoberta
A detecção de uma atmosfera em LHS 1140b representa um marco científico de proporções históricas. Mais de 6.000 exoplanetas foram catalogados até hoje. Nenhum deles, além da Terra, havia sido confirmado como um planeta rochoso com atmosfera preservada na zona habitável.
Uma atmosfera é o que estabiliza as temperaturas de superfície de um planeta. É o escudo que protege a vida do vazio gelado e da radiação mortal do espaço. Encontrar uma — intacta, em um planeta rochoso, na zona habitável de outra estrela — é exatamente o tipo de sinal que os cientistas passaram décadas esperando.
A jornada até LHS 1140b ainda é impossível com a tecnologia atual. Mas o que a ciência pode fazer é olhar, medir e imaginar. E por ora, essa descoberta é suficiente para mudar a forma como enxergamos nossa solidão no universo.