LHS 1140b: Astrônomos Descobrem a Primeira Atmosfera em um Planeta na Zona Habitável de Outra Estrela
A busca por vida fora da Terra deu mais um passo histórico. Pela primeira vez, astrônomos confirmaram a existência de uma atmosfera em torno de um exoplaneta rochoso situado na zona habitável de sua estrela hospedeira. O planeta em questão se chama LHS 1140b, e ele pode mudar para sempre a forma como enxergamos as possibilidades de vida no universo.
Conheça LHS 1140b
LHS 1140b é um planeta rochoso semelhante à Terra que orbita uma estrela anã vermelha a aproximadamente 48 anos-luz de nós. Para ter uma ideia de distância, a sonda Voyager 1 — lançada há quase 50 anos — está apenas se aproximando de seu primeiro "dia-luz" percorrido. Mesmo assim, LHS 1140b é incrivelmente próximo em termos cosmológicos.
O planeta está posicionado na chamada "zona de Goldilocks" de sua estrela: longe o suficiente para não ser assado pela radiação intensa, como acontece com Mercúrio em nosso sistema solar, mas próximo o suficiente para que a temperatura permita a existência de água líquida em sua superfície.
Um Estudo Histórico
De acordo com um novo estudo publicado na revista científica Science, o que torna essa descoberta verdadeiramente especial não é apenas a localização do planeta na zona habitável. É que LHS 1140b parece atender a critérios adicionais extremamente valorizados pelos cientistas: ele é rochoso, não é um gigante gasoso, e conseguiu manter sua atmosfera apesar das condições hostis impostas por sua estrela.
"É muito empolgante. Um grande objetivo da área tem sido entender se algum exoplaneta rochoso é capaz de reter uma atmosfera." — Collin Cherubim, autor principal do estudo, Harvard
O Problema das Anãs Vermelhas
A maioria dos planetas rochosos orbita estrelas do tipo anã-M (anãs vermelhas), que emitem radiação de alta energia por períodos muito mais longos do que estrelas como o nosso Sol. Esse bombardeio constante, combinado com os efeitos do vento estelar, acaba arrancando a atmosfera desses planetas nos primeiros estágios de suas vidas — eliminando qualquer chance de abrigar vida.
Até a descoberta de LHS 1140b, a Terra era o único planeta rochoso que os seres humanos já tinham observado com uma atmosfera intacta. Uma atmosfera é fundamental para estabilizar as temperaturas da superfície — condição essencial para que a vida possa existir.
Como a Descoberta Foi Feita
A descoberta não foi simples. Cherubim desenvolveu um modelo computacional durante sua pesquisa que "simula como as atmosferas de exoplanetas evoluem ao longo de bilhões de anos". Esses modelos previram a existência dos chamados "mundos de hélio" — planetas rochosos com atmosferas compostas principalmente por hélio. Cherubim testou sua teoria em LHS 1140b e encontrou exatamente o que previra.
Existe Vida em LHS 1140b?
Essa é uma questão complexa. Cherubim explica que a ciência reconhece três requisitos principais para que um planeta possa abrigar vida: uma atmosfera, temperaturas adequadas para sustentar água líquida, e uma superfície predominantemente rochosa. LHS 1140b parece reunir todos esses elementos.
No entanto, há complicações. A atmosfera superior do planeta é composta quase inteiramente por hélio, um gás que em geral não suporta vida como a conhecemos na Terra. Além disso, o planeta é "tidalmente travado" em relação à sua estrela — assim como a Lua em relação à Terra —, o que significa que um lado tem dia permanente e o outro, noite eterna.
Para completar, LHS 1140b é aproximadamente 70% maior que a Terra, o que significa que a gravidade ali é quase o dobro da nossa. Esses fatores não descartam completamente a possibilidade de vida, mas se ela existir, certamente será muito diferente da vida terrestre.
Modelos computacionais sugerem que a atmosfera inferior do planeta pode conter gases mais propícios à vida, como dióxido de carbono, água e até oxigênio. Os pesquisadores também ainda não sabem se a superfície é rochosa ou completamente coberta por um oceano — o que seria um dado crucial na busca por vida.
"Embora precisemos de mais dados para entender o que acontece no restante da atmosfera, este pode ser o primeiro mundo de hélio conhecido." — Collin Cherubim
O Contexto da Busca por Vida Extraterrestre
Enquanto LHS 1140b representa um salto notável, Marte ainda é o candidato mais provável para a descoberta de sinais de vida, já que pesquisadores identificaram possíveis biossignaturas em seu solo.
Outro candidato em destaque é K2-18b, onde cientistas relataram indícios preliminares de sulfeto de dimetila — composto normalmente produzido por fitoplâncton oceânico. O sistema estelar TRAPPIST-1 também concentra atenção especial: possui sete planetas do tamanho da Terra, três deles dentro da zona habitável de sua estrela.
A descoberta de LHS 1140b não responde à pergunta se estamos sozinhos no universo. Mas ela nos diz, com mais clareza do que nunca, que os ingredientes para a vida podem existir muito além do nosso planeta natal.