A indústria cinematográfica de Hollywood, conhecida por seu brilho e glamour, está passando por uma revolução silenciosa, mas controversa. Ferramentas de Inteligência Artificial estão criando uma nova economia que promete facilitar (ou complicar) a vida de roteiristas em busca de sua grande chance.

Tradicionalmente, as portas de entrada para novos roteiristas na indústria do cinema eram abertas por humanos. Havia o caminho longo e suado: estudar roteiro, trabalhar como assistente e conhecer as pessoas certas. A função do "leitor de roteiro" – a pessoa responsável por avaliar e dar feedback sobre os textos – era uma etapa quase obrigatória e uma importante porta de entrada para muitos profissionais. No entanto, serviços de IA projetados para ler e analisar roteiros em minutos estão mudando as regras do jogo.

Hoje, plataformas prometem fazer o trabalho dos leitores humanos de forma incrivelmente rápida e em larga escala. Nomes como OnDesk, Greenlight AI e até mesmo assistentes gerais como ChatGPT, Gemini e Claude estão no mercado.

A resistência, porém, é feroz. Sindicatos, roteiristas profissionais e os próprios leitores humanos estão em pé de guerra. O principal argumento? A IA está sendo treinada com base no trabalho duro e nas convenções criadas por humanos, muitas vezes sem consentimento, para então competir diretamente com eles.

Enquanto a maioria dos festivais de cinema proíbe o uso de IA para escrever as histórias, poucos aplicam a mesma regra para quem lê e avalia as submissões. O "The Black List", plataforma conceituada da indústria, garante que utiliza apenas leitores humanos. Franklin Leonard, fundador do The Black List, é cético quanto à capacidade da IA de oferecer um feedback que melhore o trabalho dos roteiristas.

Testes comparando avaliações de roteiros feitas por humanos e por ferramentas como OnDesk e Greenlight AI revelaram que o feedback gerado pelas máquinas pode ser assustadoramente semelhante ao dos humanos. As IAs conseguem identificar problemas de diálogo, elogiar abordagens criativas e até usar jargões da indústria com precisão.

Segundo relatos de roteiristas experientes, a grande diferença ainda reside na subjetividade. Embora a IA consiga fornecer um feedback detalhado num primeiro momento, ao analisar vários roteiros em sequência, começa-se a perceber um padrão nas respostas.

Mesmo assim, empresas de tecnologia continuam a afirmar que grandes agências e estúdios confiam em suas ferramentas. Para os roteiristas iniciantes, isso pode significar uma barreira extra: ter que agradar a uma máquina antes de chegar a um humano.

Apesar da IA não poder apresentar um roteirista a um agente ou indicá-lo para um trabalho, ela está se tornando um novo "porteiro" em Hollywood. A criatividade humana continua sendo insubstituível, mas agora os roteiristas precisam estar preparados para que seus textos sejam julgados, pelo menos em uma primeira triagem, por algoritmos.