Uma das características mais marcantes da humanidade é a nossa imensa diversidade na forma de pensar, argumentar e resolver problemas. No entanto, o uso desenfreado de grandes modelos de linguagem (LLMs), como o ChatGPT, pode estar ameaçando essa singularidade. Um novo artigo de opinião, coautorado por cientistas da computação e psicólogos, alerta para um fenômeno silencioso: a inteligência artificial pode estar nos levando a pensar e nos comunicar de maneira cada vez mais homogênea.

O Risco da Perda de Diversidade Cognitiva

De acordo com Zhivar Sourati, cientista da computação da Universidade do Sul da Califórnia e principal autor do artigo publicado na revista Trends in Cognitive Sciences, a riqueza da expressão humana é um de nossos recursos cognitivos mais valiosos. "A diversidade de linguagem, perspectiva e raciocínio não é apenas uma conveniência cultural; é essencial do ponto de vista funcional", afirma Sourati. É essa pluralidade que impulsiona a criatividade, a inovação e a nossa capacidade coletiva de solucionar problemas.

O perigo surge quando centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo começam a usar o mesmo punhado de chatbots. O Pew Research Center revelou que um terço de todos os americanos utilizou o ChatGPT no último ano — o dobro do registrado em 2023. Entre os adolescentes, a adoção é ainda maior: dois terços afirmam usar chatbots, sendo que quase um terço os utiliza diariamente. No ambiente corporativo, um estudo de Stanford mostrou que 78% das organizações adotaram IA em 2024. A consequência desse uso em massa é a padronização das expressões e dos pensamentos.

Uma Nova Ferramenta, Um Novo Desafio

Tecnologias anteriores também moldaram nossa cognição. A internet acelerou a disseminação de normas culturais dominantes, e o GPS reduziu nosso raciocínio espacial localizado. No entanto, como destacam os pesquisadores, essas ferramentas serviam principalmente para armazenamento e recuperação de dados. Os LLMs, por outro lado, geram o raciocínio e a articulação em nosso lugar, entregando uma "forma finalizada de pensar" sobre determinado assunto.

Essa padronização tem raízes na própria maneira como os LLMs são treinados. Esses modelos focam em regularidades estatísticas nos dados de treinamento, o que acaba super-representando ideologias e linguagens dominantes. O resultado é um produto que tende a uma fatia muito mais estreita e padronizada da experiência humana.

O Efeito "Média" na Sociedade

A homogeneização do pensamento reduz o pluralismo, princípio que sustenta que múltiplas perspectivas são vitais para a sociedade. Sem o contato com ideias variadas, o julgamento crítico e a adaptabilidade humana ficam comprometidos. Se perdemos a capacidade de pensar e comunicar de forma diferente, podemos ter dificuldades em nos adaptar a novas situações e desafios globais.

Ainda mais preocupante é o fato de que essa tendência afeta até mesmo aqueles que não usam chatbots. "Se muitas pessoas ao meu redor estão pensando e falando de uma certa maneira, e eu faço as coisas de forma diferente, eu sentiria uma pressão para me alinhar a elas, porque pareceria uma forma mais crível ou socialmente aceitável de expressar minhas ideias", explica Sourati.

Owen Muir, um psiquiatra intervencionista que concorda com as visões do artigo, resume bem a situação: uma "linguagem mais média" está sendo enraizada na comunicação humana, mesmo quando as máquinas não estão na sala.

Enquanto a inteligência artificial continua a revolucionar nosso mundo, precisamos estar atentos para que as facilidades oferecidas pelos algoritmos não custem a originalidade que nos torna unicamente humanos.