Imagine a Morte, personificada em uma figura pálida com um manto negro e uma foice, trabalhando ao lado de um homem nórdico de aparência rústica conhecido como "Enshittificator" (algo como "O Emporcalhador"). Como parceiros no crime, eles conspiram para tornar a sua vida miserável, tudo porque têm o poder de piorar produtos e serviços digitais de forma sistemática.

Se isso despertou seu interesse — e talvez soe tragicamente parecido com a vida real — a nova campanha publicitária contra a chamada "enshittification" (degradação intencional) vale alguns minutos da sua atenção.

O que é a "Enshittification"?

O termo foi popularizado em 2022 pelo autor e ativista Cory Doctorow, e ganhou tanto impacto cultural que até garantiu um lugar no dicionário Merriam-Webster no ano passado. A "enshittification" é um processo deliberado, projetado por empresas para maximizar seus lucros em detrimento do usuário.

O ciclo começa atraindo você para um produto ou serviço com qualidade excepcional até que você se torne dependente. O próximo passo é puxar o tapete: esconder recursos básicos atrás de assinaturas pagas, reduzir a qualidade geral e extrair cada centavo possível, enquanto se entrega o menor valor em troca.

Uma Crítica Afiada em Forma de Humor

O vídeo da Morte e do Enshittificator, lançado recentemente no YouTube, é o segundo de uma série criada pelo Conselho de Consumidores da Noruega — uma organização independente e sem fins lucrativos que defende os direitos dos consumidores.

Os dois personagens passam o tempo tornando todos os produtos imagináveis piores, desde TVs e escovas de dente até o armazenamento de smartphones. Eles apontam que produtos duráveis, como o indestrutível Nokia 3310 antigo (que faz uma aparição especial), geram receita apenas uma vez. Portanto, para empresas sedentas por lucros contínuos, a solução é usar materiais de baixa qualidade, dificultar os reparos e encerrar atualizações de software.

O personagem Enshittificator até comenta: "Olhe para todas as empresas que costumavam fazer produtos sólidos. Onde estão elas agora?" E a Morte responde prontamente: "Mortas", enquanto compartilham um sorriso cúmplice.

Da Sátira para a Realidade

A sátira espelha perfeitamente as práticas frustrantes do mercado moderno. Em um dos cenários, o Enshittificator afirma que as milhares de fotos do seu familiar falecido pertencem a ele, e você terá que pagar para mantê-las — uma clara referência às mudanças de políticas de serviços em nuvem, como a do Google Fotos, que restringiram o espaço gratuito e passaram a cobrar assinaturas.

Outra cena ataca as montadoras de automóveis que tentam vender funções básicas do veículo como assinaturas extras. Ele brinca sobre cobrar mensalidades para ligar o aquecimento, fazendo alusão à polêmica tentativa da BMW de transformar bancos aquecidos em um plano de assinatura mensal. Embora a reação dos consumidores tenha feito a marca recuar, outras funções ainda permanecem presas atrás de "paywalls" no setor automotivo.

O Caminho para a Libertação Tecnológica

O Conselho de Consumidores da Noruega não está apenas criticando; eles possuem uma iniciativa focada em soluções chamada "Breaking Free". O objetivo é desmantelar o controle feudal das grandes corporações tecnológicas através de uma estratégia em três frentes:

  • Interoperabilidade: Forçar plataformas a se comunicarem entre si, algo que já está começando a acontecer na Europa com a nova Lei de Mercados Digitais.
  • Portabilidade: Permitir que usuários movam facilmente seus contatos, conteúdos e playlists para serviços rivais sem perder seus dados, eliminando a dependência de um único ecossistema.
  • Descentralização: Afastar o controle das redes sociais de grandes corporações únicas, migrando para redes abertas e interoperáveis (como o Fediverso e o Mastodon).

Enquanto frear as "Big Techs" continua sendo uma batalha árdua, a campanha fornece um olhar humorístico — e dolorosamente preciso — sobre a realidade tecnológica em que vivemos hoje. É um lembrete importante de que merecemos produtos que sejam feitos para durar, e não apenas para extrair lucro.