Uma descoberta astronômica recente pode reescrever o que sabemos sobre a formação de galáxias e a natureza dos buracos negros. Segundo um estudo recém-publicado na prestigiosa revista Nature, pesquisadores podem ter encontrado algo que até então parecia ficção científica: uma "estrela" que possui um buraco negro em seu núcleo.

O objeto, catalogado como MoM-BH*-1, chamou a atenção da equipe científica liderada pelo astrônomo Rohan Naidu, que utilizava o Telescópio Espacial James Webb (JWST) na busca pelas galáxias mais antigas do universo. A princípio, MoM-BH*-1 exibia características estelares, envolto em uma densa e superaquecida nuvem de gás, brilhando intensamente com um tom avermelhado.

No entanto, as semelhanças param por aí. Ao invés de um núcleo estelar comum que realiza fusão nuclear, o centro de MoM-BH*-1 esconde um buraco negro. Além disso, as proporções são titânicas: o objeto tem o tamanho de todo o nosso sistema solar e emite uma quantidade de energia 100 bilhões de vezes maior que qualquer estrela conhecida — níveis de radiação que coincidem perfeitamente com a atividade de um buraco negro devorador de matéria.

O Fenômeno dos "Pequenos Pontos Vermelhos"

Desde que o telescópio James Webb começou a observar o cosmos em 2022, ele tem detectado centenas de anomalias apelidadas de "pequenos pontos vermelhos" nos confins do universo primitivo. Até o momento, mais de 340 desses pontos foram catalogados e sua verdadeira natureza era alvo de intenso debate.

Geralmente, uma coloração avermelhada extrema no espaço indica a presença de poeira cósmica espessa obscurecendo a luz (assim como a fumaça de incêndios pode deixar o céu avermelhado na Terra). Contudo, a análise da luz de MoM-BH*-1 revelou que seu rubor não se deve à poeira, mas sim a um casulo de hidrogênio denso o suficiente para simular a superfície de uma estrela colossal. A ausência de "assinaturas" de metais descartou a ocorrência de fusão nuclear tradicional.

O casulo gigantesco de gás está funcionando de forma similar ao disco de acreção (a espiral de matéria que orbita buracos negros). O buraco negro no núcleo estaria consumindo a estrela de dentro para fora.

Um Elo Perdido no Universo?

Como o MoM-BH*-1 brilhou consideravelmente mais que sua própria galáxia hospedeira, a equipe conseguiu estudá-lo em detalhes, sugerindo que todos os demais "pontos vermelhos" misteriosos podem ser outras estrelas de buraco negro.

O co-autor do estudo, Robert Simcoe, diretor do Instituto Kavli de Astrofísica e Pesquisa Espacial do MIT, pontua que a simulação de hidrogênio puro e hiperdenso revelou ser perfeitamente possível gerar essa coloração sem a necessidade de poeira cósmica.

Se essa teoria for comprovada por análises futuras, a descoberta de que "estrelas de buracos negros" eram abundantes no amanhecer do universo será um avanço fundamental, ajudando a explicar como buracos negros supermassivos e as primeiras galáxias se formaram em estágios tão primordiais do nosso cosmos.