A singularidade do pensamento humano e a forma criativa como resolvemos problemas sempre foram as bases da nossa evolução cultural. No entanto, o uso massivo de Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs), como o ChatGPT, pode estar ameaçando essa diversidade cognitiva. É o que alerta um novo artigo de opinião publicado por cientistas e psicólogos na prestigiada revista Trends in Cognitive Sciences.

De acordo com Zhivar Sourati, cientista da computação da Universidade do Sul da Califórnia (USC) e principal autor do estudo, a riqueza presente na forma como diferentes indivíduos escrevem, argumentam e pensam é um dos recursos mais valiosos da humanidade. Contudo, à medida que milhões de pessoas ao redor do mundo passam a usar o mesmo grupo restrito de chatbots, o resultado tem sido uma indesejada homogeneização. "A diversidade de linguagem, perspectiva e raciocínio não é apenas uma questão de enriquecimento cultural; é funcionalmente essencial", explica Sourati. "É o que impulsiona a criatividade, a inovação e a resolução coletiva de problemas."

A preocupação não é infundada, dado o crescimento exponencial da adoção dessas ferramentas. Segundo dados recentes do Pew Research, a proporção de americanos que utilizaram o ChatGPT dobrou no último ano, alcançando um terço da população adulta. Entre os adolescentes, os números são ainda mais impressionantes: dois terços utilizam a tecnologia, sendo que um terço o faz diariamente. O ambiente corporativo segue a mesma tendência, com quase 80% das organizações relatando o uso de inteligência artificial atualmente.

Tecnologias anteriores também influenciaram nossa cognição. A internet, por exemplo, acelerou a difusão de normas culturais dominantes, enquanto o GPS afetou nosso senso de raciocínio espacial. No entanto, os pesquisadores apontam uma diferença crucial: enquanto essas ferramentas auxiliavam principalmente no armazenamento e recuperação de informações, os LLMs geram o raciocínio e a articulação por conta própria, substituindo etapas importantes do nosso processo de pensamento. A consequência direta é o fornecimento de perspectivas "pré-fabricadas" para o usuário.

Os autores destacam que grande parte desse problema decorre dos dados usados no treinamento dos modelos. Como essas inteligências artificiais focam em regularidades estatísticas presentes nas suas bases de dados, elas tendem a super-representar ideologias e idiomas dominantes. O resultado é um afunilamento que reduz o pluralismo e desconsidera as nuances mais amplas da experiência humana, limitando a nossa capacidade de adaptação.

O efeito cascata afeta até mesmo aqueles que não utilizam as plataformas. Em um ambiente onde o discurso é padronizado por máquinas, indivíduos que expressam ideias de forma diferente podem sentir uma pressão social invisível para se adequarem ao padrão gerado por IA, percebido incorretamente como o mais "coerente" ou "aceitável". Se perdermos a capacidade de pensar e nos comunicar sob prismas variados, podemos estar sacrificando a própria flexibilidade intelectual que nos permite encarar os desafios do futuro.